domingo, 4 de setembro de 2016

A Foice e o Marcelo





Imagem do Kaos




Na passada sexta feira, a gasolina tinha aumentado 40 cêntimos num posto que não vem a ser chamado aqui para nada, mas na Margem Sul. Para mim, que ia no lugar do morto, ou, de quando em vez, no banco de trás, isto era muito, mas creio que para quem conduz ainda fosse mais. Aliás, a ser ainda mais preciso, como os aumentos têm sempre aquela vertente hensenberguiana da experiência e do experimentado, creio que estes mesmos 40 cêntimos de aumento deverão ter tido vários impactos e leituras, consoante e consoado o experimentador e o experimentado, o seu monóculo, e, sobretudo, o seu pendor político. Contudo, numa frase resumida, na passada sexta feira, a gasolina tinha sofrido, como dizia o defunto Vítor Gaspar, um colossal aumento, do qual só eu, distraído e muito bronzeado, terei completamente dado conta.

A coisa pode parecer banal, mas não é, já que nos lembra estar em 2016, ano fausto do centenário de uma das Relatividades, onde, abreviadamente, se diz que tudo depende do referencial e do observador. Acontece que, fosse tal aumento... bom, mais benevolamente, fosse um décimo de tal aumento a ter acontecido no referencial Passos Coelho, e teria imediatamente caído o carmo e a trindade. Como aconteceu na sexta, e o referencial já era a Geringonça, a coisa passou subtil e disfarçadamente nas divagações televisivas das bolsas de branqueamento do Futebol, como tudo o que de negativo está a acontecer também ultimamente tem passado.

Pode acontecer que o que escrevi para trás até seja mentira, ou um simples epifenómeno de uma bomba falida do Seixal, uma miragem, mas, como se sabe, a veracidade dos pretextos, como motivo para as perorações, é sempre indiferente, e eu vou perorar, sendo que o o tema são aqui os dois pesos e as duas medidas da formação da opinião pública, e do crivo da crítica, que sempre deveria presidir à isenção dos órgãos de comunicação social... ou, bom..., como eu hoje até estou parcialmente do contra, às tantas, nem sequer vou falar de nada disto, mas tão só do estado de coisas que conduziu a que estas hipóteses se pudessem agora aventar.

Como se sabe, ao contrário da Agustina e do Saramago, gosto bastante de Alexandre Dumas, e gosto bastante dele e também de uns quantos outros da genealogia da Capa e Espada ("Swashbuckler"), que me fazem sonhar com reconstruções de uma História imaginada, de preferência, ao gosto das minhas próprias fantasias. Ao contrário das estuchas do Saramago, do José Rodrigues dos Santos e quejandos, toda a gente leu os "Três Mosqueteiros", ou, pelo menos, sabe do que se trata, e sonhou um pouco lá por cima, mas também não é disso que eu venho aqui falar, já que o Dumas decerto era muito interessante, quando escreveu esses três, mas ainda mais interessante se iria tornar depois, quando escreveu os três seguintes, na forma dos "Vinte Anos Depois", e são esse vinte anos depois que centrarão esta reflexão.

Para quem ainda não percebeu o que é a "Geringonça", eu explico: a "Geringonça" é uma daquelas perigosas tentações históricas de refazer um período, baseado no tal pressuposto melancólico do isto poderia não ter sido assim, se aquilo tivesse acontecido assado, o que é sempre mentira, mas deixa sempre fazer sonhar aquelas gajas de cabelos salt & pepper e saias rodadas, que constituem a orla feminina das romarias do "Avante", genuína manifestação etnográfica do 13 de Maio do Partido Comunista Português.  Acontece que a "Geringonça" não passa de uma semienvergonhada maneira de dar corpo àquelas conversas e desabafos de café de umas certas classes de pendor intermédio e saudosismos "esquerdistas", que entendem que a história recente de Portugal poderia ter sido substancialmente outra, se os blocos das diferentes "esquerdas" se tivessem oportunamente unido, para dar corpo a sistemas parlamentares de alternância. Lá me desculparão a forma erudita, mas assim permite aos glosadores citarem logo o texto, já numa forma elaborada, sendo que a versão simples é a de que se os gajos já se tivessem entendido, esta merda não estava assim. Veio o António Costa, o Poucochinho Vermelho, ou o Poucochinho Monhé, e a nostalgia ganhou peito, pôs o soutien, e teve a coragem de sair à rua: o seu parto anunciado, como se sabe, veio logo na forma desafinada da "Geringonça".

Até aqui tudo bem, já que, do ponto de vista político, e esquecida a descarada golpada em que assentou, é uma experiência como qualquer outra. Para mim, democrata, malgré tout, preferia que a aventura tivesse sido explicada aos eleitores antes, e não depois, mas, como continuamos a ter uma das mais elevadas taxas de analfabetismo de toda a Europa, creio que a não ser assim não seria nunca, e assim foi, e assim se fez, na santa paz do senhor. Acontece que, ao não corresponder a nada, mas tão só à nostalgia de tentar recompor umas quantas fatias da história recente, a coisa também se tornou logo numa aventura de capa e espada, escrita ao gosto de um tipo conhecido pela intransigência, vaidade e meias águas de goês, o que também não seria nenhuma novidade, já que temos engolido longuíssimas sequências de primeiros ministros provindos de proverbiais sarjetas, e o resultado é, liminarmente, o que estamos forçados a viver, e sobre tal nos ficamos já por aqui. Em resumo, alguém se lembrou de ir buscar uns episódios pós abrilescos, agarrou nos protagonistas de então, caracterizou-os à a maneira do faz de conta de agora, e pô-los em cena, e, repito, nada de novo, não fosse o restante acontecido.

O restante é muito mais engraçado, já que, nestes acasos da Astronomia, enquanto no nadir se nadava assim, já no zénite as coisas piavam de uma forma similada, e só para os desatentos é que este permanente alvoroço e meiguice do Professor Marcelo, eleito capataz da Cauda da Europa também poderiam passar por programa, por que programa é coisa que ali não há, e assim vamos já ao capa e espada do Marcelo Rebelo de Sousa.

Toda a gente conhece o Marcelo Rebelo de Sousa, um vigarista, que vendeu toda a espécie de banha da cobra, naquele poleiro televisivo que lhe tinham arrendado, já não me lembro onde, mas só dos olhinhos deliciados da Judite de Sousa, para quem havia alguma diferença entre um doutorado e um simples contador de doutores, como o lunático que a andava a encornar, mas isso eram outras histórias e outras vidas, e fica para um dia em que eu tenha coisas mais importantes para dizer. Deste conhecimento universal do Marcelo derivou uma eleição de larga margem, na qual, como podem imaginar, não participei, como também não participei na do Sampaio da Nódoa nem de umas quantas outras nódoas que o andavam a rodear, mas também não é por aí por onde eu vou agora.

Acontece que o Marcelo, mal foi eleito, começou a desfolhar o capa e espada que trazia no bolso, e que não era mais do que um guião cheio de marcas e de bolor que dizia o seguinte, eu, Marcelo, venho aqui desempenhar um revivalismo de recomposição da História (os estalinistas chamavam-lhe "revisionismo"), onde tentarei provar aos basbaques que me elegeram, e sobretudo aos basbaques que não me elegeram, nem nunca me elegeriam, que, se não tivesse havido o 25 de abril, e a "primavera" marcelista tivesse continuado (até cair de podre), o nosso pequeno mundo poderia ter sido infinitamente melhor.

Não vou discutir isso aqui, já que é tema de um próximo texto, mas é fundamental que se perceba que o estalinista Marcelo Rebelo de Sousa está a encetar um metódico revisionismo dos anos da Abrilada, de modo a provar que o esteio do Ancien Régime, de onde saiu, é que era bom. O supreendente é que, do outro lado da barreira, o camarada social fascista, Jerónimo de Sousa, também está lançado no revisionismo desses mesmos anos em que as "esquerdas" nunca se entenderiam, e ambas as coisas vão agora de mão dada, num ato de espantação a quem alguém pôs o brilhante nome de "Geringonça", onde a geringonça não é aquilo a que puseram esse nome, mas sim esta milagrosa hipótese de ver ambos os programas delirantes em promiscua convivência.

Eu sei que o escrevi está um pouco para lá do extraordinário, mas,se pensarem um poucochinho monhé, acabarão por ver que tenho alguma razão, sendo que o que é extraordinário é que estas combinações, julgadas impossíveis do ponto de vista sociológico, político, e mais duramente, físico, se estão realmente a manter e a arrastar pelos meses e meses, com a cumplicidade de doçura e assombração dos órgãos de comunicação social, e decerto assim continuarão, até, por si, ou por ação de alguma inesperada bancarrota,  se estampem e afocinhem no chão. A explicação, creio, é que ambos os blocos estão a caminhar como se o vizinho do lado não existisse, o que é muito português, ou, numa versão ainda mais cínica, por que todos descobriram que a bebedeira de um até podia ser útil à bebedeira do outro, e dobraram na dose do álcool, deram a mão, e por ali continuaram.

Tecnicamente, isto conduz a zonas pantanosas de interpretação da realidade, já que na ótica romântica do poucochismo monhé as coisas não são tão más assim, posto estarem a acontecer neste período ímpar de revelação. A verdade é que está tudo na mesma, quando não está pior, e um sinónimo disto é sempre aquele terrível barómetro que entra em cena, de cada vez que desenterram a Leonor Beleza, que, no mínimo, devia ter um pouco de vergonha na cara. A Dívida Pública aumentada também não é uma realidade, mas uma interpretação egoísta e masoquista dos números. Os calamitosos fogos que consumiram metade da área ardida europeia já foram taxados de fenómenos naturais, e andou-se. Crê-se que estes fenómenos naturais sejam uma variante das tradicionais causas naturais, por sua vez, vizinhas próximas dos milagres da fé, e aqui mergulhamos no verdadeiro epicentro deste deslumbramento político, já que, quer a Foice, quer o Marcelo, acham que este tempo único só tem paralelo e procedência por um qualquer caráter divino, no caso do Marcelo, por identificação com o Vigário Francisco, pelo outro, uma por epifania napoleónica de tom goês, que permitiu que numa espécie de pokemon alargado, todas as insanáveis divisões das I, II, III e IV Internacionais subitamente se resolvessem numa simples noitada de coirato da "Festa do Avante". Como diz uma das Mortáguas, "este governo não é um governo de esquerda", e não é, este é um governo da Situação, e da Situação duplamente, pelo lado da Foice e também pelo lado do Marcelo. Acontece que a Situação não está no estado dos "Vinte Anos Depois", mas realmente numa senda caduca de Quarenta Anos Depois, barriga inchada, perna a arrastar e um olho com cataratas, um velho romance novo de cordel, a ser redigido a muitas mãos, por um bando de alucinados, que ainda não percebeu que a História não se corrige, e muito menos se corrige assim.

Em quarenta anos, o Mundo mudou muito. A Foice já se sabia que não tinha percebido; só faltava o Marcelo vir confirmar que também não. Dizem os pessimistas que, quando acordarem, todos cairão no chão, Eu sou ainda mais pessimista, e acho que não é no chão que eles vão cair, mas bem em cima das nossas cabeças...




(Quarteto do Avante, Marcelo, avante, no "Arrebenta-SOL" (desativado), no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers", opulento e nada revisionista, exceto em casos de necessidade extrema)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Fábula dos filhos do Embaixador do Kebab






Já o disse várias vezes, e volto a repetir, perde-se demasiado tempo a combater gajos dopados nos desertos da Síria, quando mais valia que se começasse a caça ao dopado nos muitos subúrbios do Ocidente. É certo que é sempre mais fácil andar a bombardear o horizonte da aridez do que invadir apartamentos HLM, a Quinta do Mocho ou os arredores de Dusseldorf, mas essa poupança vai-nos sair demasiado caro, aliás, o vai-nos, situado num futuro próximo, é um erro de expressão, já que este estado de coisas se tornou inerente aos próprios tempos presentes.

Eu sei que é muito complicado para a Dona Arminda, de Baguim do Monte, ter de começar a acreditar que o seu filho, um puro produto de subúrbio, ainda sem o verniz postiço da Teresa Guilherme, de cada vez que lhe desampara a loja, e vai sair, para a "night" de Baguim do Monte, é como se fosse, com os amigos, treinar para as traseiras do quintal, as táticas do cinto bomba, do extermina assim e do mata e esfola como se nada fosse. Um dia houve em que ainda estava ela a ver as novelas da TVI e o gajo tinha acabado de limpar, com uma soqueira, um dos do bando da frente, a pretexto de uma disputa de uma recém menstruada. Foi na Domingos Baião, mas podia ter sido na Calçada de São Coitado à Lama, ou nos Champs Elysées, mesmo aqui ao lado. Depois, se a coisa se desenvolver como se pensa, ele pedirá desculpa, e depois de ter emigrado para os arredores, voltará a matar a 2000 quilómetros de casa. A versão dois é mais ou menos igual à versão um, só que em pacote: agarrou em veneno dos cães, e matou três gajas, duas delas das que já andavam engalfinhadas, e a terceira por que estava a tomar o gosto à coisa, e também ia embarcar no roço e começar,em Tires, a engalfinhar-se também. O homem é macho, e não pode permitir uma coisa dessas, rezou para a Meca dele, matou as sapatonas e toca a andar. A versão três é mais ou menos mais do mesmo: eram seis da manhã e o bacano teve fome, pôs-se na esquina, com aquelas saias de xadrez baratas que eles usam, por cima das calcinhas apertadas, a esconder o raquitismo e a falta de banho, e fez um voo rasante em cima do cota, era turco, só serve para o damo comer, depois de  o damo comer, mata-se. Deu-lhe com os ténis, e ficou com um bruto bife de kebab rasgado no focinho. A quarta, que me levou a escrever este texto, é mais sofisticada, por que mete os próprios filhos do embaixador do kebab anterior, e aqui o discurso muda de registo, posto que, se os campos de treino do Daesh são todos iguais, ainda é mais verdade que há uns mais iguais do que os outros, e eu passo já a explicar.

Na ascensão da insignificância, que silenciosamente levou a que cultura urbana fosse substituída pela cultura surburbana, num silencioso, mas imparável, deslizar, que passou por anas malhoas, marizas e cristianos ronaldos, os valores das coisas foram calmamente substituídos pelos valores de outras coisas, menores e insidiosas. Quando acordamos, já eles e elas estavam instalados. Fala-se de uma democratização, mas a democratização é um mau, péssimo, nome para um abandalhamento, na direção dos piores valores proletários. Os defensores de que o socialismo fabiano anunciava o advento do Neomaoismo, com uns comunisticamente muito ricos, no topo, e os outros, completamente acartuchados e acinzentados, muito no baixo, mas felizes, de mocilha às costas e smartphone nas unhas, convencidos de que andar na EasyJet é turismo, e que Lisboa se vê em três dias, dois dos quais na forma de noites de b'jecas e mijadela, de pé, contra a esquina, ou agachada atrás dos latões de metal, para depois acabar a atafulhar o metro, no meio de malões baratos e gajos de rastas, a precisar de uma boa mangueirada, dizia eu,
de
que,
os defensores deste espécie de alegria dos valores baratos, e do politicamente correto, sempre dominados por aquela voragem do Fim da História, arriscam-se agora a acabar com a própria História. O próprio motor e dinâmica das sociedades está indissoluvelmente ligado às clivagens e às diferenças de potencial, sendo certo de que uma cultura onde a entropia está no máximo já é uma cultura das águas caldas, que é o mesmo que dizer que está morta. Ora, uma cultura que está morta, precisa de se auto estimular, de modo a que a sensação das águas mornas não seja sufocante. De aí ao homicídio por que sim, e ao esmurrar até matar, por desfastio, vai um ligeiro passo, e já o demos.

Nas sequelas da podridão nacional, com o nome local de Cavaquismo e Neocavaquismo, foi moda sair da sarjeta e imediatamente colocar nas unhas das crias carro, com ou sem carta, e barraca no subúrbio, não falando, claro está, do casamento homogéneo e simplificado, com a oxigenada de coxa de pele de laranja. Este foi só um grau de entropia de arranque, e logo se esqueceram os avós do candeeiro de petróleo e das noites passadas com as cabras. Como nunca se deve servir nem a quem pediu nem a quem serviu, este estado de coisas criou uma primeira geração de quistos sociais, movidos pela ambição do ter, sem nunca ter chegado a ser, ou ter de saber. Chegada a crise, tudo isto mergulhou no cano, mas por colossais assimetrias, já que a sociedade diabólica do neoliberalismo estava definitivamente instalada. A métrica era simples, e fácil de assimilar: como isto não chega para todos, é fundamental que eu faça parte dos que têm, e que se lixem os que não, ou nada, têm. A segunda palavra é ainda mais simples: se puder ter, então, que tenha ainda mais, não venha o Diabo vir e tecê-las. O resultado disto tudo, em crescentes guerras e guerrilhas de bairro, conduziu às franjas do poder afastado e às terríveis bainhas do enormemente excluídos. Nestas bainhas teve origem o Daesh, subproduto do fundamentalismo cristão, com os adereços e apetrechos de um falso falar corânico. Os seus melhores campos de treino estão na guerra ao pica, nos aceleras da ponte, nas salas do insucesso escolar e nas drogas e rixas de discoteca.

Na verdade, esta métrica da posse, ditada pela impossibilidade, custa muito caro, e devora todos os recursos. São hoje falados os casos dos pais que são agredidos, e dos outros que se empenham e contraem empréstimos insolúveis, para que os filhos possam ter o necessário para participar na dinâmica da "night", já que, se não andares na "night" não existes, e, se lá andares, acabarás a existir ainda menos. Esta é a terra dos cristianos ronaldos, do oco e do vazio, e do extremamente caro do nível das representações.

Quem não tem estoura, e quem se cansou, ou não tem o que estoirar, põe um cinto bomba e começa a estoirar com os outros.

Claro que tudo o que escrevi atrás é mentira, e, se não for mentira, é demasiado simplificador. Na realidade, a corrente subterrânea, imediatamente sucedida ao atrás descrito, é uma coisa ainda pior, posto que, acabada a lógica do sucesso pela cultura, pelo trabalho e pela construção do eu, substituído pelo acaso, pelo errante e pela ditadura do Ego, os valores foram ainda mais subvertidos. Pelo que consta, os pais da geração de atrás já não se contentam com dar cartas de condução, mas começaram agora a pagar aulas de aviação aos nascituros. A coisa pegou, e desenvolveu mais uma daqueles subterrâneos à portuguesa, fazendo de Ponte de Sor (isso é onde?...) uma terra, não de campónios, mas de estrangeiros, a pingar fortunas. E, se tiverem menos de 18 anos, tanto melhor, já que não podem conduzir carros, mas então que pilotem aviões, o que até é normal, no país do "Pilinhas" e do quanto mais novinho melhor...

Faço aqui uma pausa, já que este é o novo mundo dos novos monstros. Eu Sou de um tempo em que em Cannes e Saint-Tropez uma geração de ouro esbanjava dinheiro, antes de embarcar nos iates mediterrânicos. Creio que então se refugiavam por detrás de grandes nomes e das fortunas dos papás. Um pouco mais de uma década, ou duas, esta subversão das escadas da ascensão, com o medíocre a ser platinado muito precocemente, lançou ao zénite a fina flor da escória, no meio de tumultos e invejas, para não falar dos muitos gemidos de impotência: estes novos milionários, perpetuamente adolescentes, com imunidades diplomáticas e outras armas nunca de antes imaginadas, criaram o futuro Mundo das Hienas, e estão-se a entredevorar, devorando-nos a nós também com eles. Brevemente os barulhos dos aceleras vão ser substituídos pelos estrondos das avionetas que caem, por que conduzidas sem brevet, ou só por vingança. No limite, o papá paga, e, se não pagar, o bacano vem à TVI, pedír desculpa.

O reverso, ou as consequências disto tudo, é que a apropriação destes meios, cada vez mais custosos e inacessíveis, leva a que a multidão dos que nada têm se multiplique. Desenganem-se os novos marx da cabidela, que aqui vêem a tempestade perfeita da insurreição: não haverá  quaisquer revoluções, mas apenas atos continuados de extermínio, de bandos de cintos bomba, a fazerem-se explodir no meio daqueles que têm a versão mais atualizada do smartphone, o meu reino por um tablet, e o matei-o, por que ele não me fez like. No campo das relações de trabalho e do tecido económico, as coisas não são melhores: a pirâmide dos empregos far-se-á em função dos que ali estão apenas para dar serventia ao pessoal das discotecas, os empregados do restaurante de antes da "night" e o turco do kebab que tem de estar ali a servir o preto longo das noites quentes das seis da manhâ. Não conseguiu comer a dama, e tem agora de se alimentar, e, se o cota não nos serve, a gente esfola o cota. Nós, pagadores de impostos, temos doravante de saber que estamos a alimentar esta enorme e crescente corrente do ócio, onde os subsidiados do nada fazem, mas muito têm, conseguiram transformar todas os dias de trabalho dos outros na sua maratona prolongada de permanentes noites de fim de semana, com toda a comunidade a apenas existir como seu pano de fundo, e fonte de subvenção do mais absoluto nihilismo social. Na outra extremidade da Cova da Moura, os filhos do embaixador do kebab agarraram no segurança e foram desfazer a cara dos frequentadores do "Koppos Bar", de Ponte de Sor, onde se baixam as calças, se faz picanha com os pés, e só há hematomas desfigurantes, com os carros, carros, carros...

Passamos agora dos carros para os aviões, sem aviso, e, dentro de cinco anos, lá estaremos nos foguetões. Numa velha rábula da Humanidade, haverá então os que têm e os que nada têm, e os que nada têm serão cada vez mais, e os que têm cada vez mais arrogantes e liquidadores. No fim, todos eles acabarão no terreno a exterminar-se uns aos outros, grande lição do Daesh para a História. Quanto a nós, pois, nós estaremos pelo meio, para cairmos, um a um, um após outro,  do primeiro até ao último, mercê do seu fogo cruzado.




(Quarteto do kebab, no "Arrebenta-SOL" (desativado), no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers", sempre soberbo e implacável)

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O Daesh como lugar psicanalítico e fisiológico da decadência do Ocidente









Num tempo em que me não lembro bem de quando, nem onde, nem por quê, os órgãos de intoxicação social adotaram a mais errada das denominações para um recente grupo terrorista: começaram a chamar-lhe "Estado Islâmico", quando o seu verdadeiro nome era "Daesh", e não se encontrava sequer na Síria, ou no Iraque, mas um pouco por toda a parte, onde disséssemos Ocidente e Oriente, e nem sequer era uma invenção recente, mas antes uma longa construção da complacência e cumplicidade do Socialismo Fabiano com a destruição da Cultura Ocidental.

Há uma teoria da fisiopsicologia que diz que enlouqueceríamos, se fossemos forçados a dar todas as ordens necessárias ao funcionamento de todos os mecanismos automáticos do corpo. É algures, no bolbo raquidiano, que, entre outros, os processos autónomos da respiração e do bater do coração se desencadeiam. Que seria daquele organismo que tivesse de pensar, antes das sístoles e diástoles, ou de dar um  milhão de ordens para encher o peito?... Na realidade, todo este automatismo foi importado para toda a sociedade, e muitas das rotinas da nossa existência estão hoje ligadas ao seu automatismo próprio. Como já por vezes se disse, nas sociedades desenvolvidas atuais, qualquer indivíduo médio poderia seguir do nascimento à morte, apenas cumprindo regras e rotinas, sem sequer ter chegado aos lugares da Filosofia ou do divino.

Este acostumamento das coisas tem, na Natureza, um outro nome, já que pode ser aproximado, por analogia, da mimese, e a mimese é o poder de umas coisas passarem desapercebidas por outras, por mero efeito de infiltração e disfarce. O Daesh, camada sociológicas das sociedades ocidentais, estudou e pratica este princípio de mimese e de automatismo das nossas defesas e atenções. E ele não o faz de agora, fá-lo de há muito, sendo talvez o seu efeito mais espetacular o atentado às Twin Towers, onde nada deixaria prever que a imagem quotidiana do avião que cruza os céus ora anunciasse um terrível míssil contra um centro financeiro mundial. A suspeita caiu sobre os comboios, o metro, e todos os transportes. O Daesh tornou-nos todos os objetos familiares em inimigos potenciais. Tudo o resto são réplicas posteriores, as sociedade dos nómadas de ginásio e computador, dos turistas cegos, de fim de semana, em qualquer lugar barato da EasyJet, sempre com a perpétua mochila, onde o Daesh já infiltrou os seus sacos explosivos; os festivais de multidões alucinadas, de óculos escuros, por detrás dos quais o Daesh escondeu os seus últimos guerreiros suicidas; os idiotas de barba fardada, todos lançados nos concursos da ninfómana Teresa Guilherme, todos iguais, e todos ávidos de exibir sinais de virilidade compensadores da sua desvirilização física e mental, infindáveis multidões de burka maxilar, como se tivessem uma bota invertida calçada no queixo, e todos iguais àquele fundamentalista que se irá fazer explodir junto da Torre de Belém de Lisboa.

Por que, um a um, através das suas células adormecidas, o Daesh já infiltrou os hábitos, lugares e rotinas do Ocidente, tudo aquilo que fazemos sem pensar e todas as coisas que preenchem a normalidade da nossa escolha cultural, ou, por outra perspetiva, tudo aquilo que o Daesh odeia em nós, e jurou um dia exterminar. Na verdade, nós não poderemos viver a desconfiar de cada uma das coisas de que gostamos, nem passar a pensar em cada passo dado, com receio de que ele possa ser uma nova ratoeira do inimigo. O Daesh não é de hoje, é de há um tempo arcaico, e foi tendo várias faces, ao longo da História. Na nossa idade mediática, nós limitamo-nos a oferecer-lhe o próprio brinde de nem se ter de deslocar, para avaliar a eficácia do seu último atentado: a vertigem dos idiotas das "selfies", dos exibicionistas do "Facebook" e dos alucinados autistas do Twitter encarregou-se de o fazer, em tempo real, e de passar ao inimigo o máximo de informação por ele desejado. Este lado psicanalítico, em que o exibicionismo de uma sociedade malsã se cruza com o agrado voyeur dos assassinos é a verdadeira boda de sangue com os criminosos do Daesh.

É agosto, verão, e as próximas vagas de atentados estarão aí. Não sabemos se as sociedades continuam sem perceber que estão em risco final, e que o futuro breve pode ser uma multidão filhos da puta do calibre de Putin, Erdogan e Trump, a marcarem o Final dos Tempos. E até é provável que continuem sem perceber, ou que alguém, nelas, comece a ter de finalmente acordar. É verão, e é agosto, e são férias. Talvez seja tempo de perceber que estamos em guerra, e que um pouco de disciplina porventura fizesse bem, como treino de proteção das sociedades urbanas. Talvez vá chocar, mas que interessa, o enorme charme destes textos é exatamente a sua permanente capacidade de chocar. Poderíamos, assim, começar por impor uma disciplina de cara rapada, a todos os idiotas que visualmente se tornaram profetas de pacotilhas das cidades do ocidente. Seria uma mera prudência dos tempos de guerra, uma simples higiene contra o inimigo, uma lição de alerta e diferença, e um simples treino doméstico contra os infiltrados. Caras rapadas, e ordem de identificar, em cada esquina, quem não cumprisse este rapar obrigatório, uma medida breve, rápida e concisa, para dar a ver ao inimigo que assim lhe retirávamos, sem pudor, a forte arma da mimese.

Não iria hoje mais longe: podíamos aplicar esta medida, já, nos festivais de verão, em todos os lugares em que o Daesh, psicanaliticamente, não nos forçou a cancelá-los. E podíamos começar a rapar já queixos, por onde os víssemos e a respirar de alívio, da tarefa feita, e, porventura, a rezar (podem ser orações laicas, coisa de que o Ocidente bem, e tanto precisa, de ambos os lados da cortina...) e a rezar para o Daesh não se nos tivesse já adiantado, e acabássemos a rapar os queixos ensanguentados de mais um massacre no metro de Berlim.

Boas férias, leitores.




(Quarteto da mimese da morte, no "Arrebenta-SOL" (em pausa), no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

sábado, 2 de abril de 2016

Daesh in the sky with diamonds





Dedicado ao soldado Alex Pushin, que nos devolveu as primeiras flores de Palmyra




Agora que o filme está a chegar ao fim, o Obamismo nada conseguiu produzir, exceto Donald Trump. É justo, por que a eleição de Obama sempre teve um programa de marasmo previsto, e Trump é uma forma de marasmo como qualquer outra, talvez com a diferença de que mais vale um Donald Trump do que o Obamismo ter parido coisa alguma, e arriscava-se agora a chegar ao fim, deixando-nos de mãos completamente vazias.

Semelhante ao Obamismo, só a deriva, rezam os livros de História, de Jimmy Carter, fraca figura, que, na segunda metade dos anos 70, deixou o Mundo à beira de cair nas mãos do Império Soviético: nunca Moscovo chegou tão longe, com a conquista da Indochina, a queda do Negus da Abissínia, uns grupelhos vermelhos a incendiarem a Península Ibérica (então, uma "geringonça" monopartidária, para quem se lembre...), uma Grécia à beira do soviete, uns acidentes pelas Caraíbas e o Afeganistão, finalmente, onde os porcos pós estalinistas se afundaram em miséria, como todos os invasores se tinham afundado, bem antes deles. Pior do que isto, só os solavancos maoístas e os gritos de perfeição do gueto albanês. Naquele tempo, se aquilo não era o fim, então, o que seria o fim, mas mais iria haver para ver.

Graças à Apple que a versão presente é mais iPhónica, e o preto americano é uma loa bem diferente da coisa sinistra que foi Ronald Reagan. Como diria Aristóteles, a velhice está para a juventude, tal como o crepúsculo está para a manhã, e assim estará Trump para Obama, como Reagan esteve para Carter. No final disto tudo, também há, e sempre houve, um títere Putin, com esse ou outro nome. Há quem lhe chame analogia, mas eu prefiro acreditar que é bem a voz de Spengler a falar da bela Decadência do Ocidente.

O Ocidente escolheu decair de formas diversas, e algumas delas inesperadas. Roma, quando soçobrou, transformou-se num subúrbio; o Ocidente preferiu acabar numa epopeia de suburbanos, gente gira, na ótica da Teresa Guilherme, gente fatal, na ótica dos poucos, que, como eu, estamos a viver a coisa na sua inevitável literalidade.

É inevitável que voltemos a Bilderberg e ao seu programa de "normalização" pela base. Com Bilderberg, apenas tenho um ponto de contacto e uma única coincidência, a de que o Mundo está superpovoado, e superpovoado por representantes da espécie cada vez mais desinteressantes e perigosos. Infelizmente, as religiões, que se apresentam sempre como tão sábias, foram sistematicamente incapazes de girar a chave do problema, através da enunciação de um simples "não procriarás"... De aqui deriva, embora não se ouse estabelecer a conexão, que a tão falada inevitabilidade de uma geração inteira a ir ter de viver pior do que geração que a antecedeu não é mais do que uma resposta dos programadores dos figurinos do Mundo a esta cultura do enxame multiplicado num mundo despovoado de recursos. Os sensores estão todos em sintonia, e há uma lógica do senso comum que realmente conflui numa conclusão inevitável, a de que a desenfreada multiplicação da espécie humana, uma das espécies mais tóxicas do planeta, é incompatível com uma igualdade de posse dos meios. Por outras palavras, chegamos à axiomática de que já não chegaria uma Terra inteira para produzir os bens do fascínio das grandes ilusões destas massas todas.

Mais interessante do que tal evidência é se terem tornado esquivos os corolários do anterior, já que, se as coisas não chegam para todos, então, a quem chegarão, e a resposta é extraordinária, posto que se não rege por um princípio do mais apto, mas pela lógica de Bilderberg, em que sobreviverão os piores, ou para dar rostos às coisas, sobreviverão os protagonistas e finalistas dos reality shows da, e vou repetir, Teresa Guilherme.

Como já deverão ter percebido, a Teresa Guilherme é aqui completamente irrelevante, já que ela não passa de uma espécie de Wally de todas as teresas guilhermes deste mundo. Ela não é mais do que um bodisatva de um budismo perverso e imprudente, que prega o desprezo por todas a regras do mundo e um salve-se quem puder assente nas volatilidades de um corpo com uma semivida de vinte anos, e dois ou três orgasmos falhados no chuveiro. Na realidade, esta insuficiência na posse plena de todos os recursos do planeta é espantosamente resolvida numa oval forma colombiana, do já que eles não podem ter tudo, e não podem desconfiar de que tudo já não é possível que esteja na posse de todos, então dêem-lhes o onírico às postas, simplesmente, invertendo a lógica do indispensável.

Esta gente foi filha de uma gente para quem a educação, o emprego, os cuidados de saúde, o estado social, as reformas e a estabilidade na velhice eram os pilares maiores de uma aventura da finitude. A grande aposta dos sabotadores do Mundo foi diminuir-lhes a esperança de vida, acenando com as glórias do êxito fácil, e os quinze minutos de fama do Wahrol, os quais foram esticados durante meses, a baixo custo, piores expectativas, e plena intoxicação da TVI: só tatuam os braços do cotovelo até às mãos aqueles que sabem que isso vai contra uma política de certos empregos e castas, e essa mimese é própria daqueles que subliminarmente já estão a ser preparados para a exclusão. Também a saúde não é importante, por que as doenças são problemas da velhice, e a velhice é um horizonte quimérico, uma coisa de que falam os avós, avós que nós nunca seremos, mas dos quais tanto continuamos a depender, durante os curtos anos da nossa sobrevivência.

Curiosamente, e por um princípio de entropia, este empobrecimento em massa repercutiu-se a montante, afetando a geração anterior, forçada a sustentar esta massa enorme de desempregados, de desapossados do teto próprio, e nos quais é sistematicamente necessário injetar os capitais que permitem os sinais efémeros de sobrevivência: a representação social das roupas, dos eventos musicais, das discotecas, e da troca, segundo a moda, dos tablets e smartphones, e a droga, necessária à permanente anestesia. É um interminável narcisismo, afundado no vazio, na virtualidade e no combustível das substâncias. Vales e és o tamanho do teu Facebook. Tudo o resto se tornou irrelevante, e não integra a cultura da deseducação. Desde que os pais paguem, os filhos podem concentrar-se na posse dos poucos objetos que os validam na vacuidade contemporânea. Na verdade, nós não quereremos imaginar o que vão ser os filhos destes filhos, criados no caos e na precariedade, mas acreditamos que já virão dotados de um princípio de amnésia, que os fará esquecer de que as coisas nem sempre foram assim. No final disto tudo, estará uma guerra, entre os que ainda têm e os que nunca tiveram, entre os que ainda se lembram e os que já não guardam memória, e, sobretudo, entre aqueles que vivem do não esquecimento e os que sabem que o registo da memória é um incidente letal. A violência começa no estádio, e estende-se até Palmyra. E é aqui que chegamos ao ponto essencial deste texto, já que nós viemos aqui para falar de guerra.

Sendo a História perigosa para estes sistemas, é fundamental que regridamos no tempo, e regressemos à memória, ou seja, ao ponto em que, historicamente, este cenário foi manipulado, para chegar à desagregação que preparava. Não voltaremos a falar das derivas neoliberais, por que são já do senso comum, mas importa recordar que esse é o big bang do colapso presente, ditado pela irracionalidade do salve-se quem puder, mesmo que, no final, ninguém se chegue a salvar. Esse é um dos cenários de Bilderberg, ditados pela lógica do extermínio, e nós vamos alegremente nessa direção.

O princípio do empobrecimento global, que entre nós teve muitos rostos, gera imparidades crescentes, já que a lógica do pântano não é sincrónica com o afundamento de todas as camadas da sociedade. O subúrbio da exclusão, com o seu princípio de reconquista dos centros abandonados, é uma das maiores glórias desta nova idade média: começou-se por caçar os picas e acaba-se a decapitar no teatro de Palmyra.

A falácia seguinte assenta na representação, e nos valores visuais da representação, já que a lógica do subúrbio tem heráldica, uniforme e ritos: ninguém, melhor do que o neoliberalismo, importou para os cânones do visual os estigmas do novo nomadismo: as mochilinhas, os capuchinhos, os óculos escuros, as barbas a despropósito, e a mais recente estética dos pés em forma de martelinhos de cordas de pianoforte, a emergirem na ponta das calcinhas lycradas e apertadas. De aqui aos fundamentalismos das madrassas de Kandhaar e de Fahti é um passo, e este cortejo dos falhados do Ocidente, que invadiram as nossas ruas e praças, nada mais é do que um generalizado cavalo de tróia do nosso colapso civilizacional. Só se espantarão os incautos de que os servos do aeroporto de Zaventem tenham celebrado os atentados de Paris. Toda a superpopulação gera violência. Faltava-lhes ainda o enquadramento religioso, e nisso os bilderbergers falharam, já que não bastou a "geringonça" de dois papas fundamentalistas e um totó para subverter séculos de aggiornamento e laicização. Porquanto todo o empenhamento fanático e a cruzada antierótica de Woytila e Ratzinger não foram suficientes para fazer o Ocidente empolgado atravessar o limiar da jihad. Esse teria sido o cenário de guerra ideal, em que um Ocidente fundamentalizado se apropriasse dos recursos das civilizações vizinhas. Mas, como a guerra era indispensável, foi necessário, encontrar um casulo mais radical, que, impossibilitado de se encostar aos fanatismos sionistas, encontrou bom porto nas derivas ortodoxas do Islão. O Islão não é senão uma segunda escolha de cenário, falhada a tentativa do fundamentalismo cristão. Para aqueles que dizem que o Daesh é um subproduto das políticas de relaxe do capitalismo selvagem tem de se fazer o reparo de que esta gangrenosa infiltração dos tecidos sociais por elementos estranhos e radioativos é, pelo contrário, fruto dos laxismos das culturas da integração e da mestiçagem, os piores flagelos das sociedades rendidas às "geringonças", que, no limite das suas necessidades de defesa, acordam nas formas estranhas dos donalds trumps destes mundos.

Esta é uma guerra que não assenta na posse de territórios, mas na uniformização do pensamento. O seu fim final é o colapso da Democracia e o fim da herança ateniense. Brevemente, que é o hoje já, todos teremos integrado os argumentos das correntes extremistas e totalitárias como postulados elementares das nossas mesas de café. Ao nosso lado, todos os que se sentarem e não partilharem do nosso pensamento estarão ao alcance da rapidez de autos de fé tecnológicos e literais, perpetrados pelos novos escravos do precário e dos 500 €, e imediatamente publicitados no Twitter e no Instagram.

Foi esta cultura nómada da mochilinha obsessiva que nos tornou invisível o bombista suicida do metro de Lisboa. Foi esta cara tapada pelos óculos, pela barba e pelo capuchinho, que tornou o nosso vizinho do lado vizinho do militante do Daesh, encarregado de se vir fazer explodir nas rotundas do Colombo e nos saldos do El Corte Inglês. É o puro triunfo da estupidez, replicado e assistido por milhões, nas cenários da ninfómana, Teresa Guilherme, que marca a irrelevância da educação, e que permite que se tenham dinamitado os templos de Palmyra, tal como se dinamitaram os Budas afegãos. Brevemente, não haverá livros, mas apenas estádios de futebol. Sabemos que o Sr. Balsemão, como muitos, gosta disto e aplaude. Talvez goste menos, quando chegar a vez de ser a sua cabeça decapitada a decorar a capa de alguma edição extraordinária do "Expresso"...



(Quarteto da esplendorosa Tadmor-Palmyra, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

As Presidenciais de 2016 e os abortos do Tempo Novo





O PCP fez uma sondagem à boca da hóstia e perdeu. A Roseira fez uma sondagem ao gargalo do Alegre, e foi-se. O Sampaio da Nódoa fez uma sondagem à boca da Pilar del Rio e jangadou daqui para fora. O Henrique, o Jorge e o Cândido puseram-se ao espelho, e o espelho quebrou-se. Já o Morais parecia uma caricatura de si mesmo, e assim continuou, e assim vai continuar a ser. A partir daqui, podemos dizer que ganharam todos, e assim se fez o Tempo Novo, e assim sempre foi, e assim sempre haverá de ser.

Depois deste arranque de humor, vamos passar a uma análise mais fria, e científica, para esta breve não sofrer das mesmas insuficiências do "Also spach Zaratusthra", em que a coisa começa altíssimo, e depois se confunde com a cinematografia toda do Manoel de Oliveira, tirando o "Bobó" do início. E, sendo a coisa científica, passamos já aos números, para fundamentar as nossas evidências. E, assim, sendo, também poderemos aritmeticamente dizer que, nestas Presidenciais de 2016, de raquítica memória, ganharam todos os números ímpares, e, a partir daí, todos os pares começaram a perder, sendo que ímpares são, pela ordem que lhes conferiu o Inteligent Design, o Marcelo, dos cataventos, a Marisa, das manifs, e o Tino de Rans, de Rans, e pares, o Da Nódoa, a Anã e o Prete Rosso. Como diria o Woody Allen, o Tino até é par, mas lá se pôs numa posição ímpar, só para disfarçar, e disfarçou, e disfarçou muito bem, pelo que está de parabéns. Numa análise mais fina, só possível nos programas da Cristina Ferreira, o próprio Vitorino se converteu e exprimiu em números, e praticou uma comovente numerologia de pacotilha: foi o sexto de uma prole numerosa de seis filhos, vinha em sexto no boletim de voto, e, como ficou em sexto lugar, esqueceu-se de concluir que 6 e 6 e 6 até faz 666, o número da besta, que muito bem se adequa ao tempo que vivemos e ao sucedido em 24 de janeiro...

... 24 de janeiro que entra para a História como o primeiro tiro de salva da partida de Aníbal de Boliqueime, a figura que começou por degradar o papel do Governo, arrolando toda a casta de facínoras e futuros cadastrados, arruinou depois a motricidade parlamentar, com o seu camaracorporativismo das enchentes maioritárias do seu sim-sim senhor doutor, e acabou com a ruína da própria instituição presidencial, transformada num cabecismodeabóbora, sem abóboras e com cabeça ainda muito menos. No meio destas três ruínas, também teve tempo para arruinar o país inteiro, sendo que, até 9 de março, com um pouco de sorte, ainda poderemos assistir à falência de mais um banco, perdão, ao maniqueísmo de mais um balcão financeiro, dividido entre a luz do Bem e as trevas do Mal, a mostrar que em Portugal nada se eleva, nada se fale (só os escritores se podem dar ao luxo de fletir tempos verbais inusitados...), tudo se encrença, e acaba por contabilizar. A cereja em cima do bolo foi marcada por abortos e por vetar casais passivos do mesmo sexo poderem adotar os abandonados dos casais passivos do sexo oposto.

Depois disto, qualquer dos ímpares até nos seria indiferente, já que o Palácio de Belém está no mesmo estado de Fukushima, depois das fugas radioativas, e bem fez o Marcelo em refugiar-se já em Queluz, como a Lamballe se meteu um dia nas portas dos fundos do Hameau, em busca de ricos pastorinhos, embora o risco mais imediato do Marcelo seja, de facto, o Vírus da Zika, caso ele se lembre de começar a parturir microcéfalos, na Cauda da Europa, um risco iminente, depois da fuga de todos os cérebros do passosportismo. Marcelo não está no mesmo estado de degenerescência de Cavaco, mas a sua recorrente "paragem glotal", deixa antever algumas derivas pelos tiques do queixo nervoso, razoavelmente suportável, desde que não enverede por babar-se em público... Já Marisa Matias contou espingardas, e chegou aos dois dígitos, para muita dor e rancor dos que achavam que o lugar dela era o espaço deles, o evento de uma carinha larocas, um pouco prognata, mas dentro dos horizontes libidinosos de quem nunca levantou os olhos acima dos aventais e das saias rodadas pelo joelhos, dos bailes da Atalaia. A verdade é bem outra, e com o seu queixo habsburgo, tivesse a Marisa nascido no tempo de Vélasquez, e acabaria agora pintada nas paredes da Zarzuela, muito rodeada de amorosas marias de belém. Já Tino de Rans me parece ser a única pessoa capaz de defender os valores de uma certa tradição, e o único que, em 9 de março, poderia avançar para o cargo com o facho de salvar o brilhante espólio da agonizante Maria de Boliqueime, mas a História não o quis assim, e iremos, de aqui a pouco mais de um mês, assistir a mais uma queima de bibliotecas de alexandria.

Passando aos perdidos, é unânime que o PCP finalmente inaugurou o seu declínio, com os votos fiéis a fugirem em todas as direções, e um certo portugal profundo a avisar que os padres devem estar de um lado e as cassettes devem estar do outro, sob pena de as cassettes ficarem num canto, a rezar as suas missas solitárias. Igualmente esperamos que Maria de Belém encerre aquele penoso período de declínio manuelalegrista do nosso folclore, em que nos vimos forçados, pela estupidez de um cavalheiro decadente, que já não se enxerga, a ver sucessivos ciclos de eleição, e reeleição, por 5 anos, de todo o sarro conservador, por apostas erradas e quaisquer inexistências de alternativa. Na mesma ótica, também Sampaio da Nódoa, que já se sentia "a pensar como Presidente" -- pensou, e pensou mal --, vai agora regressar à Universidade, e faz bem, por que continuamos com algumas dúvidas sobre o que se passou em redor do ano de 1982.

Diz ele que estava em Genebra, entre dois despachos de reitores e ministros (aí, fadista!...) a fazer um curso concluído em dois anos, dado o "seu enorme afinco"(!)... O meu, nem com afinco, consegui eu reduzir abaixo de cinco, e cremos que, nesta ótica das cidades, nem Bolonha alcançou ser tão generosa quanto Genebra foi com ele... Como diz o burlesco João Jardim, o Nóvoa é "um Tino de Rans para académicos", e é, mas não só, pois é pior e mais profundo. Passado este pensamento ácido, convém que olhemos mesmo para a coisa bem de frente, já que a derrota do Lânguido das Reitorias não foi uma derrota qualquer, antes foi a derrota de um dos mais descarados e vergonhosos conluios de interesses da modernidade portuguesa. Talvez fosse verdade que a sua candidatura não fosse imediatamente política, nem sequer partidária, mas nem precisava de o ser, já que antes era um fenomenal casamento dos impulsos do Ente Supremo casados , à nossa frente, com os empurrões do Senhor Santo Deus, ou seja, o dernier cri das núpcias maçónicas com as trevas da Opus Dei. Desta perspetiva, o fracasso de Sampaio da Nódoa é um mero movimento de recuo das próprias defesas do eu profundo da coisa portuguesa, e de uma impossibilidade, de facto, de certas sombras se apessoarem da totalidade do cenário, através de alianças perversas, sistematicamente derrotadas. É sobre estas reiteradas recusas que o Gil e o Lourenço se deveriam debruçar, já que constituem uma matriz profunda da raiz nacional, e um incómodo ressalto, nesta terra que tudo admite e tudo suporta, contra certos contornos da maré excessiva. Na prática, o himeneu do cilício e do avental, corresponderia à estética perfeita do sufocante, com cada uma das tendências a elidir, até ao pormenor, todas as possibilidades de autonomia, com tapar a totalidade das frestas da autenticidade, um mundo de determinismo ao qual nem o próprio Marquês de Laplace se atreveria. Como Calvino, a condenação do nosso destino estaria, para sempre, determinada pelas velhas caras do "Tempo Novo". Com muito azar, também era comunista, e cumpria assim a fusão dos piores totalitarismos do tempo novo do milénio passado. 
Sampaio da Nódoa foi o Golem do fracasso das bodas do Cilício e do Avental, com o apadrinhamento da Santa Foice. Foi-se.  Com algum desagrado da História, a velha Europa exilou-o em Santa Helena, e veremos que Santa Helena irá reservar a este rosto sombrio do "cidadão novo" e às suas metástases.


Marcelo Rebelo de Sousa é infinitamente mais complexo, já que representa um princípio de inércia, que, passando por Cavaco Silva, e assumindo agora um zénite flácido na sua pessoa, mais não é do que um monótono fluir de sucedâneos do Estado Novo, na impossibilidade de gerar novos arquétipos de sustentabilidade. Marcelo Rebelo de Sousa está para o Caetanismo como o Período Saíta está para o Império Antigo, mas com o interior virado do avesso, já que a ressonância não assenta na mimese das formas, mas muito antes na monotonia das sensibilidades. Nesta perspetiva, a vitória das luzes de Celorico de Basto está ferida de uma inevitável melancolia, já que na ótica do Estado Novo, Marcelo nunca poderia despertar mais do que sorrisos salazaristas a quaisquer aspirações presidenciais. Nem sequer, quando, com 25 anos, se punha em bicos de pés, para ser notado, num esforço de irrelevância de cartas, pelo próprio caetanismo. Nesta ótica, e por que devemos estudar o ser no seu próprio ambiente, não foi Marcelo que amadureceu, ao ponto de ascender ao lugar do qual agora virá a tomar posse, mas antes o cargo que empobreceu, ao ponto de Marcelo o poder vir hoje a ocupar. Sobre tal, nenhuma novidade, já que é o retrato latente de toda a contemporaneidade, e uma radiografia do estado das coisas: não é interessante, nem notável, mas apenas o lugar de um incontornável reparo.

Resta o Marcelo homem, na sua multiplicidade. Como bom esquizofrénico, arrastará para Belém a sua multiplicidade. Nestes recentes tempos, houve um Marcelo que se atreveu a candidatar, e mesmo um Marcelo que o impulsionou ao ponto de poder ganhar. Dia 24, vimos um outro Marcelo, o que ganhou, a citar penosamente um outro que se encontra num idêntico estado de permanente delírio, Bergoglio, o Francisquinho do Vaticano. Dia 9 de março, outro marcelo tomará posse, e vamos ver que marcelo ocupará nos dias seguintes o Palácio de Belém. Quando chegar a hora dos confrontos políticos, haverá um marcelo que decide e um marcelo que comenta, e outro, ainda, que se comenta, e mais outro, que se porá a comentar os outros dois; haverá um marcelo que afronta e um outro marcelo que desiste, um marcelo que se pavoneia e um marcelo mais perturbador, que se contentará com exibir. Não sei se este recital chegará a tornar-se alguma vez interessante, penso, antes, que deve ser assim que as civilizações colapsam, ou, porventura numa ótica mais otimista, que os cargos, pela sua progressiva irrelevância, assim se esvaziarão, ao ponto de se permitirem a epiderme deste mero espetáculo quotidiano.



(Quarteto ligeiramente pós caetanista, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Os doces diplomas da nódoa









Com a campanha presidencial a entrar na sua période vache, não quereria deixar de vir regar aqui, com um pouco mais de gasolina, esta triste fogueira branda. Tem a eleição de 24 de janeiro o mérito de ser aquela que menos me aquece e arrefece, por ser uma eleição reprise, um triste bis das legislativas de outubro, dado que, tal como, há três meses, quando toda a gente desejava que o Coelho perdesse, sem que o Costa ganhasse, este domingo será marcado pelo mesmo vorrei e non vorrei, onde toda a gente normal, no fundo, deseja que o Marcelo perca mas o Nódoa também não ganhe.

Pronto, eu já sei que toquei no nervo da coisa, mas a ideia era mesmo tocar nesse nervo da coisa, pelo que vou continuar a sofismar, sempre orientado pelo tempo novo. Um dos sinais do tempo novo, como outubro demonstrou, é que se podia ganhar, mesmo quando se perdia. Há umas vozes negativas que defendem que o Costa já tinha a golpada toda combinada com os seus parceiros da "esquerda", e que ganharia sempre, mesmo que perdesse. Há uma certa melancolia nesta análise, é certo, mas eu vou acreditar em que também temos o direito de ser melancólicos, e tentar perceber como é que este tempo novo poderá permitir que o grande perdedor de 24 de janeiro, lá para a madrugada de 25, já se possa apresentar como vencedor.

Por uma redução ab absurdo, temos de tentar entender quem poderia ganhar, caso o Marcelo de Rans perdesse, e há uma certa frieza lógica que nos leva imediatamente a excluir os candidatos da coisa coitada, e vou agora à página da Comissão Nacional de Eleições, muito bem comportadinho, para lhes tentar retirar os nomes, já que estou como a História, que brevemente os vai devorar, e os não sei sequer de cor. Risquemos, pois, aqueles que o tempo novo já declarou como vencidos: Paulo Morais, Henrique Neto, o Tino de Rans, Jorge Ferreira e Cândido Ferreira. Se não me engano, já despachei cinco, pelo que agora já só me falta despachar os restantes.

Edgar Silva é um caso à parte, já que, mesmo num tempo novo, e ganhando sempre o PCP, independentemente do resultado, Edgar Silva já ganhou, e dou-lhe por isso os parabéns, posto que isso me facilita a tarefa de me debruçar sobre os restantes quatro. A Marisa não me é antipática, como já deverão ter percebido, e tem a virtude de ter, na juventude, andado a pastar cabras. O texto é tão mau que se permite ter a assinatura da Câncio, e por isso aqui o evoco, com algum carinho, e pela simples oportunidade de me ter sido útil, neste tempo novo. Não creio ser um requisito, para a Presidência da República, que se tenha andado a pastar cabras, mas também não se deve excluir, por um princípio de paridade democrática, a virtude de as ter pastado, agora, ou num tempo novo. Consuetudinariamente, também Aníbal de Boliqueime o fez, no seu tempo velho, isso, e muito mais, e lá chegou, hirto e firme, pelo que Marisa Matias também já tinha direito ao seu precedente. Registamo-lo com algum brio, e fazemos o reparo de que tal se insere numa longa linhagem de políticos que vieram das brenhas e se acercaram da cidade. Marisa Matias distingue-se deles, pelo facto simples que, num tempo certo, deixou as cabras e se fez à urbe, e cansada da urbe, partiu para a Europa. Muitos fizeram menos, e limitaram-se a vir pastar cabras para a capital, quando não as continuaram, num tempo novo, a calmamente pastar numa desgastada Europa.

Maria de Belém Roseira é infinitamente mais patética, por que se insere na longa linhagem daquelas balconistas, cerzideiras e espartilheiras, do tempo antigo da minha avó, que acharam que, bastando trepar para cima do balcão e mostrar as ligas e a combinação chegavam a um patamar qualquer do vaudeville, e chegam, já que o país inteiro ora se degradou numa gigantesca palhaçada. Maria de Belém é o último Sonho de Gerôncio de Manuel Alegre, e depois disto cremos que começará a eternidade etílica. Toda ela é marcada pelo pietismo e toda ela se rege pelo princípio do à justinha, pequena, maneirinha e com algumas potencialidades. Cremos que o momento mais alto deste campanha tenha sido a sua visitação aos embaixadores, muito semelhante à chegada dos Três Reis Magos, mas em minúsculo, em que, durante alguns memoráveis minutos, enquanto o camerlengo dela repetia o erro de protocolo de dizer "o senhor embaixador de aqui, e o senhor embaixador de ali, e o senhor embaixador de acoli", em de vez de "o senhor ministro do estado tal, etc", a nossa miniatura do coração teve os ventrículos apontados para outro lugar, com todos os olhares a dirigirem-se para uma filha, muito grávida, muito empandeirada num canto da sala, onde, espojada, acariciava as curvas de uma barriga muito curva, muito inchada, de onde irá sair uma ínclita geração, para provar que, nós cá, Portugueses, num tempo novo, ainda sabemos emprenhar, e não precisamos de "refugiados" de burka alheia, para aqui virem aumentar as emissões de CO2 da atmosfera. O vídeo é memorável, e só não tem a assinatura do Manoel de Oliveira e a medalha de cavaleiro das artes do Tony Carreira, por que não calhou, e por já estarem ambos, por esta altura, demasiado mortos. Vejam, por que vale a pena. A Maria de Belém, 24 de janeiro dará um digno lugar, nalguma junta de freguesia de Lisboa, e todos nós, ela, e o Manel, ficaremos, num tempo novo, satisfeitos, com um tão generoso bem haja, e um voo tão raso dos aventais femininos.

Afastados estes horrores, ficam o Bucha e o Estica desta triste paródia. O Marcelo já levou a sua dose, e mais dose vai levar, no dia 24. Há certas correntes que defendem que o catavento está apenas a submeter-se a este vexame por vazio e vaidade, ou para provar que o país chegou a tal estado de degradação que lhe permite uma pista de aceleração, para "só ver no que dá", e, se, no dia 24 for eleito, resta-lhe ainda a oportunidade de dizer que agradece muito e não aceita. Para quem conheça o Marcelo, ele é capaz disso e até de muito mais, como se irá ver neste curioso ciclo negativo, à porta do qual, num tempo novo, estamos, e pelo qual ansiosamente esperamos.

Não por acaso, mas por premeditação, deixei para o fim o fenómeno das reitorias. Para quem pensava que tudo o que era mau, em termos dos "interesses", em Portugal, se tinha acotovelado atrás de Marcelo, ainda não tinha visto o rasto de Nóvoa: a sinistra Pilar del Rio, a par com a miserável Inês de Medeiros e o lúgubre Zé que faz falta. Não vou enumerar mais, por que já fiquei com vontade de vomitar. Gente desesperada e capaz de tudo, e de potenciar o clima, nem que, para tanto, tenham de matar o Almeida Santos, ou o Soares velho. Tanto quanto reza a sua biografia não oficial, Sampaio da Nódoa, filho da da Dona Saladina, veio de Cabeçudos, e pareceu cair dos céus, crente, cremos, de ser um novo Saladino, e creio que quem de lá o atirou de pára quedas ficou à espera de que o engolíssemos, já que nós costumamos engolir tudo e não resmungamos. Dizem que começou a instrução primária em Caminha, mas só a acabou em Nova Oeiras, pelo que ela se deve considerar extensa, não na duração, mas, porventura, na distância. É fundamental, para o país do Mourinho e do Ronaldo, que tenha passado a infância e a juventude com uma bola nos pés. Eu passei-a com Proust, Júlio Verne e Suetónio, mas creio que deve ter sido por isso que nunca me candidatarei a Presidente, nem a coisa nenhuma parecida. A parte seguinte não deixa de ser interessante, já que, em Coimbra, e matriculado em Matemática, passou o tempo entre os campos de futebol e os palcos de teatro. Quanto a estudar, omite-se o estudo e a palavra estudo... A fase seguinte já inclui os cafés, e as noitadas, e os relvados são trocados por uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, que dá razão àquelas línguas compridas que dizem que por lá passou tudo, até os elétricos.

Entre 1973 e 1976, como reza essa generosa biografia, e omitindo que houve uma revolução pelo meio, fala-se de muita animação cultural, dinamizações de cidadãos e "expressões dramáticas" (!). Curso é que não, mas curso para quê, já que se abalançou diretamente à "formação de professores"?... Percebemos, e continuamos, para 77, onde, dessa formação de professores chega às aulas de moto próprio, em Aveiro. Cansado da academia, embarca num Fiat 127, e ruma à Suíça. Ao contrário do seu padrinho Cavaco, que rumou à Figueira da Foz, no célebre Citroen que o conduziria à ruína do país, Sampaio da Nódoa vai somente a Genebra, de onde sai com um curso (?) e um pegar de empurrão para o doutoramento (!), generosamente sobre a história de (certos) professores em Portugal.

Cumpre aqui fazer uma pausa, para nos debruçarmos sobre o princípio da bola de neve, que começa do tamanho de uma noz e acaba a engolir cidades. Não nos espantará que, em 85, já alguém o tenha convidado para ser professor convidado num instituto de educação física, e que depois aterre nas famigeradas Ciências da Educação, que estão para o séc. XX como as Profecias de Nostradamus para o Nicolao Maquiavel. A partir de aí, são todos os fogos de artifício previsíveis, a agregação, a cátedra e a Sorbonne, para fazer um segundo doutoramento que tirasse as dúvidas sobre o primeiro. Sarastro empurra-o para a Reitoria, mas o Tamino só se contenta, como Carrilho, com a Unesco. 


Não sei quem redigiu esta biografia, mas é um texto notável do estilo do volátil e do generoso. Não chega a ser comovente, já que introduz os patamares do costume: há nisto uma mistura de Harry Potter com as equivalências de Miguel Relvas, e espera-se que ninguém se lembre de escrever as linhas seguintes, que, de acordo com a lógica do Avental, deverão incluir uma Presidência da República e o Bispado de Roma, para lá venerar um Ente Supremo.

Não me apetece alongar mais sobre esta evidências. Nos tempos áureos da irmandade honesta, fez-se um exercício de estilo de oferecer um Imperador aos Franceses. Os tempos são, agora, infinitamente mais modestos, entre napoleões de goa e os cavacos de fancaria. Há muita gente espantada com os novos casamentos, também chamados "ménage à trois", que incluiriam, para lá da filiação base, núpcias espúrias entre comunistas e maçonaria, entre opus deístas e estalinismo, e, mais curioso do que tudo, entre seguidores do Balaguer e seguidores do Aventalinho. Se bem pensarem, a coisa nada tem de estranho, e explicaria muitos entroncamentos, como o par Constâncio, pai e filho, mas o mais estranho assenta numa espécie de balanço da revolução de abril, onde, muito mais importante do que as descolonizações, das transformações económicas, de mentalidade, no aumento da esperança de vida ou na liberalização do costumes, o grande aggiornamento tivesse sobretudo assentado naquela coisa estranha, que foi, não o acesso de todos aos estudos, mas a democratização da concessão de diplomas, de que Sócrates e Relvas são apenas os cumes cómicos de um curioso icebergue. Na realidade, o lado mais perverso da abrilada foi a proliferação destes faz de conta académicos, que se instalaram, num tempo novo, por toda a parte e de qualquer modo. Não voltaremos a falar desta "geologia das licenciaturas", já que ela espelha e traduz toda a inquietação profunda desta sociedade doente, que, num tempo novo, vai votar no dia 24.

O 25 de abril foi tempo novo dos diplomas de secretaria.

A pena residual que tenho pela derrota de Sampaio da Nódoa é do custo que ela vai significar, em vésperas do retorno da Troika, e do desgosto que vai provocar, naqueles que tanto apostaram neste derradeiro naufrágio. Na falta de números concretos, apenas poderei dizer que os aventais ficarão um pouco mais pobres, num tempo velho, o que, curiosamente, não acontecerá com os cilícios, já que os últimos, ao contrário dos primeiros, não costumam pagar, nem sequer num tempo novo, as derrotas, sobretudo quando perdem. Temos pena: arrivederci :-)



(Quarteto das núpcias falhadas do tempo novo do cilício e do avental, no "Arrebenta-SOL", no "Democracia em Portugal", no "Klandestino" e em "The Braganza Mothers")